"As raízes brasileiras são o destaque de conteúdo no percurso das atividades artísticas de Pama Loiola. É nessa linha de afinidade que a artista vai ao encontro das tradições marcantes de nossa gente.

Seu trabalho, complexo no primeiro momento, torna-se mais nítido ao nosso olhar quando observamos registros de sua longa permanência na Bahia, espaço onde assimila o fogoso lirismo das festas populares, os mercados, as danças. Tudo isso está presente na sua cerâmica feminina: encorpadas figuras de mão na cintura e objetos enfiados em arame, lembrando caxixis ou miuçalhas vendidos no mercado de São Joaquim, em Salvador.

Em uma de suas fases, grandes telas assinalam sua forma de interpretação de manifestações populares. São novos caminhos onde Pama traz à luz a escuridão da gruta de Peruaçu. Em apuradas pinceladas sobre texturas resinosas, registra algo que representa um verdadeiro estudo do comportamento: são frases e nomes deixados pelos passantes (sobre a parede lodosa da caverna) que comandam o processo de comunicação do sentimento humano.

Tais obras, isentas de moldura ou qualquer outra interferência, convidam o espectador a criar com a autora espaços imaginários, completando a sala da própria gruta. As telas são, portanto, fragmentos de sonho.

Pouco a pouco, sua obra vai se situando cada vez mais nos costumes do povo, quando são incluídas também lembranças de Festas do Divino, reisados, procissões, transferindo-nos a Minas Gerais, Estado onde nasceu e onde circulam estas tradições, entre as gentes de vida simples.

O traçado de sua produção não se vincula à euforia da pós-modernidade, tão comum nos salões. É implicado um novo modo de atuar, através dos materiais pesquisados.

Em uma fase anterior, suas pinturas são povoadas de agrupamentos de figuras que assumem a postura de retratos de família. São inúmeros os trabalhos desta série que curiosamente é resgatada agora. O que vale registrar, é a forma com que organiza seu pensamento, sua criação, voltados para os trabalhos da atualidade.

Ali, a finalidade com o jogo gráfico, a manipulação das técnicas de reprodução: "t ransfers " e "b anners " são introduzidos neste momento em que experiências se fundem.

Interessante leitura desenrola-se em grandes painéis que não são propriamente uma instalação. Em um fundo de intensidade cromática, enfileiram-se cartelas significativas. O novo desafio fez com que Pama invadisse a intimidade dos retratos antigos encontrados nas casas de parentes e amigos, coletando fotografias de "noivas", "primeira comunhão" e "famílias reunidas" a fim de atingir seu intento. São os "ritos de passagem" reprografados. Eles se mesclam à nostalgia dos "retalhos da vida". É a camisola, o peignoir de cetim, fragmentos de colchas de renda, restos de artefatos domésticos do início do século passado, lembrando a vida doméstica, os lares antigos, a convivência amável dos avós. O perfume de alfazema paira no ar.

A fatura desse último trabalho é esmerada.

As contas de lágrima são a junção dos destinos de cada um."

Fúlvia Gonçalves
Artista plástica e doutora em artes pela UNICAMP
Julho de 2001

 

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